terça-feira, março 08, 2011

Reportagem: Sul Mod

Sul Mod

A subcultura que nasceu na Inglaterra há quase 50 anos continua influenciando gerações de bandas até os dias de hoje

Já passava das sete e meia da noite quando André terminou de dar o nó em sua gravata skinny, abotoou o paletó de brechó por cima da camisa e calçou as botinhas que se destacavam sob a barra da calça justa. Sua banda, a Torneiras, formada em Itajaí no começo de 2008, tocaria em um bar de temática australiana na vizinha Balneário Camboriú em menos de meia hora. Considerando o trânsito do início da noite fria de um domingo de junho na cidade, certamente chegaria depois do horário marcado. Mas André sabia bem como essas coisas funcionavam. Geralmente os shows começavam cerca de uma hora depois do horário estampado no flyer. Sem muita pressa, juntou suas coisas, entrou no carro e saiu em direção ao bar. Em pouco mais de vinte minutos já estava lá.

Assim que chegou, a atenção dos poucos sujeitos que faziam graça do lado de fora foi voltada para aquela peculiar figura vestida como se chegasse de uma temporada de férias no ano de 1964. André Fuck [sobrenome que pediu emprestado para sua mãe e adotou como seu] cumprimentou alguns conhecidos e entrou no bar segurando o enorme case que protegia a guitarra semi-acústica canhota vermelha. Não eram só as roupas e a pose que faziam com que fosse confundido com um viajante do tempo. As letras de suas músicas não hesitam em fazer referências a gurias retrôs, aos ternos de brechó e aos discos dos Beatles. Os outros dois rapazes que completam a Torneiras não eram tão atípicos, mas estavam acostumados a ver o companheiro de banda caprichar no visual para os shows. Principalmente os que eram importantes como aquele.

Naquela noite eles abririam a apresentação de Júpiter Maçã, aquele que fez um bando de jovens usarem terninho e ajudou a dar impulso à série de bandas que bebem na mesma fonte dos ingleses dos anos 60. Júpiter Maçã, ou melhor, Flávio Basso, foi vocalista de uma das mais icônicas bandas de rock gaúcho da década de 80, Os Cascavelletes. Em 1996, após a mudança de nome e uma guinada psicodélica, fez explodir em cada canto de Porto Alegre um tipo emblemático de adolescente: os mods.

A referência para tudo o que aqueles garotos da capital gaúcha queriam ser vinha da Londres dos anos 50 e 60. Vestidos com ternos italianos impecáveis e justos ao corpo, botinhas lustradas e usando cabelos de cortes simétricos, os mods ingleses uniam-se intrépidos nos pubs londrinos enquanto suas lambretas aguardavam estacionadas do lado de fora. Amantes do jazz, do rythm & blues e do ska, viviam em pé de guerra com os rockers, outro grupo de adolescentes que adotava o rockabilly americano, com suas jaquetinhas de couro e imaculáveis penteados, como estilo de vida.

Bandas como The Who, The Yardbirds, Small Faces e The Kinks adotaram e espalharam o mod pelo resto mundo. Durante a década de 60, novos grupos dispostos a abraçar a subcultura surgiam a todo o momento. No final dos anos 70, quase 15 anos depois da explosão universal do mod, nomes como The Jam e The Vapors, acabaram surgindo e criando o que foi chamado de “mod revival”. A reinvenção do movimento tinha basicamente a mesma proposta do original, porém, novas influências passaram a ser injetadas na música.

Na primeira metade dos anos 80, nascia no Sul do Brasil uma das primeiras bandas do país a carregar sutilmente a referência mod em suas melodias, o TNT. Depois de algumas músicas lançadas, dois dos seus membros decidiram deixar o grupo para formar outra banda. A ideia era manter referências semelhantes, mas com uma proposta um pouco diferente: eles preferiram trocar as histórias sobre garotas e aventuras com carros a mil por hora por frases mais obscenas e escrachadas. Eram Os Cascavelletes – a banda do vocalista que anos mais tarde só atenderia por Júpiter Maçã.

Sim, nós somos mods

O ano era 2000, os quatro jovens tinham todos em torno de 18 anos e havia um bom tempo já desfilavam seus terninhos e calças de linho pelas ruas de Porto Alegre. Foi quando decidiram formar uma banda. Uma banda essencialmente e assumidamente mod. “Pra tomar trago e pegar mulher”. Paulo Germano, Rodolfo Krieger, Beto Stone e Thiago Peduzzi empunharam respectivamente a guitarra, o microfone, a bateria e o baixo. Tornaram-se então os Gabardines.

– A gente era muito mod. Tu acha que [a banda] Cachorro Grande é mod? A gente era muito mais mod. – repetia Paulo Germano em uma manhã de domingo em Porto Alegre, ainda emendando a noite de sábado, quase nove anos depois dos tempos áureos dos Gabardines.

Hoje, aos 28 anos, Paulo é jornalista de um dos principais jornais do Rio Grande do Sul. Após se dedicar durante algum tempo a escrever uma coluna semanal sobre rock alternativo no caderno de cultura, hoje cobre política. Mas jamais pensou em deixar a música de lado.

Se para André Fuck, da banda Torneiras, é normal de vez em quando trocar o terno por uma jaqueta de couro e as botinhas por um par de All Star imundo, Paulo lembra que na época dos Gabardines não era bem assim. Eles costumavam ser inimigos de quem adotava esse estereótipo.

– A gente era fútil, andava sempre arrumadinho, barba feita, sapato lustrado, então rolava uma rivalidade com os punks chinelões.

Junto com os Gabardines foram despontando novas bandas semelhantes na cidade, como o Cachorro Grande, que mais tarde conquistou espaço em nível nacional, e o Laranja Freak, que ainda misturava boas doses de psicodelia em suas canções. Fora da capital, em Rio Grande, vinham ao mundo também os Faichecleres, que com suas letras divertidas e desbocadas não tardaram em se mudar para Curitiba. Lá, passaram a garantir reconhecimento e respeito no underground com seus ternos, suas camisas espalhafatosas e curiosos cortes de cabelo. Os Faichecleres acabaram dando visibilidade para outras bandas na capital paranaense, como os Dissonantes, que despontavam com o seu rock’n’roll sessentista açucarado.

Após quase dois anos perambulando pelo andar de baixo do rock porto-alegrense, com algumas músicas de destaque no cenário roqueiro, como “Thati pira” e “Sentimento de carência”, metade dos Gabardines, Paulo e Thiago, começaram a cansar daquela história de terninho.

– Começou a ficar muito manjado, sabe? Virou uma moda. Não era mais um diferencial tu sair na rua de terno e gravata. – argumenta Paulo.

A partir daí, o fim da banda já parecia iminente. Mas a situação conseguiu piorar.

– A gente queria ser igual ao The Who, mas o Rodolfo resolveu que queria tocar guitarra e não só cantar. Disse que se sentia pelado. Só que não tinha lugar pra outra guitarra, entende?

As diferenças estéticas e musicais acabaram em brigas com direito a soco na cara. O clima ruim decretou o fim dos Gabardines.

Paulo e Thiago trocaram os terninhos por jaquetas e os sapatos por pares de All Star, chamaram dois amigos e, no final de 2002, formaram o Stratopumas, com uma proposta completamente nova. Já Beto e Rodolfo compraram mais alguns ternos, deixaram seus sapatos ainda mais lustrosos e, também com mais dois amigos, formaram Os Efervescentes.

Apesar das diferenças e dos rumos que cada um tomou, todos eles continuaram amigos, chegando a criar situações divertidas e até uma falsa rivalidade. Um show das duas bandas, em 2004, intitulado “Jaquetinhas versus Gravatinhas”, trazia no flyer de divulgação a foto dos dois vocalistas frente a frente com expressões furiosas. Naquela noite, dizem os boatos, uma gravata chegou a ser queimada. Hoje os Stratopumas não existem mais. Já os Efervescentes continuam por aí com o mesmo propósito de anos atrás e uma nova formação. Rodolfo Krieger passou a fazer parte da banda Cachorro Grande em 2005.

Para Paulo, apesar das bandas remanescentes, o movimento morreu. E alguns detritos do passado hoje ecoam um tanto embaraçosos.

– Por exemplo, sempre no final dos shows a gente tinha que quebrar os instrumentos. Hoje, se eu tocar em um show e decidir espontaneamente quebrar a minha guitarra, tudo bem. Mas, com a gente, isso já era previamente pensado.

Mesmo achando que adotar o mod atualmente é mais uma tendência, Paulo não critica quem ainda aposta nessa, e defende as bandas que investem na aparência.

– Quem diz que o visual não importa e o que importa é só a música, não sabe o que tá dizendo. Uma das coisas mais cativantes no rock é o visual. Não existe rock sem indumentária.

Os sobreviventes de uma época

Foi numa tarde quente do mês de novembro de 2010, que Os Efervescentes chegaram a Balneário Camboriú. À noite seria o primeiro show de uma turnê de quatro dias por quatro cidades diferentes de Santa Catarina. A formação atual da banda agora contava com apenas dois membros originais e definitivos: Beto Stone e Daniel Tessler. O primeiro continuava empunhando as baquetas. O segundo assumiu a guitarra e o vocal. Para dar apoio nos shows, a dupla ainda convidava mais um guitarrista, o Gustavo Chaise, e um baixista, o Eduardo Barretto.

– Eu ajudei a fundar a banda em 2002 com o Beto, o Daniel e o Rodolfo – disse Eduardo, entre goles de cerveja em um boteco com cheiro de fritura no centro de Blumenau, na noite do terceiro show da turnê.

– Desde então já saí e voltei da banda algumas vezes. Da última vez que saí foi porque eu tava com outras ideias na cabeça. Mas eles são meus amigos e precisaram de mim agora, então...

Atualmente Eduardo toca em outras quatro bandas, entre elas a Faichecleres, que agora vive em São Paulo, o que obriga o músico a fazer ponte aérea para os shows na capital paulista. Ele também acompanha uma cantora de MPB em Porto Alegre e recentemente passou a fazer parte de uma banda com influências mais modernas, os Gulivers. Nos shows, Eduardo acaba se destacando dos demais integrantes por sempre vestir o inseparável terno e as botinhas pretas.

– Até falaram pra eu usar umas jaquetinhas da Nike... – brinca o baixista.

Mas é na sua banda original, os Impressionistas, que Eduardo pode mostrar seu talento como compositor. Na mesma banda toca também Gustavo Chaise, o guitarrista que acompanhava os Efervescentes nos shows em Santa Catarina. O som dos Impressionistas, como não poderia deixar de ser, perambula com certa autenticidade pelos anos 60.

A preocupação dos Efervescentes em fazer um show perfeito é visível em cada detalhe. Em cada apresentação, Beto e Daniel usam um figurino diferente, e as roupas dos dois são obrigatoriamente iguais. Eduardo e Gustavo, como apenas acompanham a dupla, adotam o mesmo modelo em todos os shows: sapatos pretos, terno preto, camisa branca e grava skinny também preta. Durante as viagens de van, Beto e Daniel se preocupam também em se acomodar nos bancos dianteiros, ao lado do motorista, onde a bagunça tende a ser menor.

– A gente prefere ficar lá pra se concentrar. Ali atrás tinha sempre muita bagunça. Esses dois aqui [aponta para Gustavo e Eduardo] são foda e não precisam disso. Mas já sabem que se errarem no show ganham só metade do cachê. – disse um cansado Beto Stone em tom de brincadeira enquanto esperavam o ônibus que os levaria de volta para Porto Alegre, na segunda-feira de manhã, horas após o último show.

O baterista, que era membro original também dos Gabardines, não costuma comentar muito sobre a época. Quando questionado sobre alguns detalhes, minutos antes do segundo show da turnê, em Rio do Sul, dizia não se lembrar muito bem dos detalhes da fase Gabardines.

– Mas eu vou lembrando, aí eu te falo.

Não queremos ser iguais a ninguém

Foi em uma loja de discos em Joinville no verão de 2006 que Miles Babireski e Juninho se conheceram.

– Se a gente fosse inventar essa história, não teria saído tão legal – disse o sorridente Miles driblando o som alto de um pub apinhado de gente certa noite em Joinville.

Na época, Miles ainda morava em Canoinhas e tinha ido para Joinville visitar alguns parentes. Naquele dia a família toda resolveu sair para dar uma volta no shopping e, um tanto entediado, Miles entrou em uma loja de discos, só para matar tempo. Circulando pelas prateleiras, dando olhadelas na sequência de guitarras penduradas na parede, ouviu uma voz masculina perguntando ao atendente da loja se por acaso não tinha o CD do The Kinks.

– The Killers? – teria rebatido o ingênuo vendedor.

Após o lapso, Miles resolveu intervir na conversa entre o balconista e aquele rapaz de costeletas e camisa listrada.

– Não lembro bem o que eu falei, mas acho que fiz um meio de campo pro vendedor entender que era The Kinks, e não The Killers.

Miles não fazia ideia de que dois anos depois aquele rapaz chamado Luiz Carlos Molodowski Junior se tornaria simplesmente o Juninho, vocalista e baixista da banda que ele ainda nem tinha. Depois de chegarem à conclusão que de fato não havia o CD do The Kinks na loja, Miles resolveu puxar assunto com o simpático jovem.

– Conversamos pra confirmar o nosso gosto sixtie, Beatles, as outras duzentas bandas boas dos anos 60, essas coisas. Eu já vi que o Juninho tinha mais essa veia The Kinks e The Who, e eu tinha aquele lance Beatles 63, aquele iêiêiê mais melódico. Daí eu acho que fechou certo, se completou. Então trocamos nossos contatos pra um procurar o outro no Orkut, porque na época o Orkut era relevante.

No fim das contas ninguém adicionou ninguém no Orkut, mas não demoraria muito para que o destino se encarregasse de colocar os dois na mesma estrada novamente. Assim que Miles se mudasse definitivamente para Joinville, em 2007.

– Eu e o Juninho tínhamos um amigo em comum, o Eduardo Baumann. Ele entende bastante de mod e sabia que eu queria montar uma banda anos 60, e o Juninho tava procurando uma faz tempo também. Daí nos encontramos os três em um show do Renato e seus Blue Caps e tudo se esclareceu. Ele era o cara da loja de discos.

Após alguns meses de reuniões musicais, um dia na casa de um, outro dia na casa de outro, em novembro de 2008 os Bacamartes fizeram seu primeiro ensaio. O nome da banda, disse Miles certa vez em entrevista para uma emissora de televisão, tinha que começar com B, por causa dos Beatles, dos Beach Boys e dos Byrds. Era óbvio que uma banda que foi unida por causa do The Kinks teria como inspiração alguns dos principais nomes do rock’n’roll sessentista.

– Mas nós não nos consideramos mods – apressou-se em esclarecer o discreto Juninho com seus olhos atentos quase cobertos pela franjinha à la Keith Moon nos idos da década de 60. – Porém, reconhecemos a influência dele em nossas músicas. – acrescentou em seguida.

Se no ano 2000, lá em Porto Alegre, os Gabardines queriam ser iguais ao The Who, Juninho diz que com os Bacamartes a situação é outra.

– Nós temos várias influências, mas não queremos ser iguais a ninguém. Pegamos um pouco de referência de várias bandas e tentamos ser nós mesmos.

Apesar do som nitidamente sessentista, a banda não se preocupa tanto assim com o visual, e procura adotar sutis referências do vestuário dos mods misturadas a peças básicas do dia a dia. Mas ainda assim convivem com olhos curiosos de quem não faz parte de nenhuma vertente do rock e um discreto preconceito de quem prefere um som mais pesado e um visual mais agressivo.

E por que no sul?

É inegável que os três estados do Sul são os que mais abrigam bandas influenciadas pelo rock sessentista e, principalmente, pelo mod. Para Miles, dos Bacamartes, o clima da região tem uma parte da responsabilidade pelo fenômeno.

– Quando é calor o tempo inteiro, o pessoal vai pra praia. Quando é frio, tu coloca um casaco e pensa: vou fazer música. – teoriza.

Já André, da Torneiras, acha que tem muito a ver com a colonização dos estados do Sul.

– As melhores bandas e as mais importantes dos anos 60 eram inglesas. Talvez seja algum traço da característica dos europeus, sei lá. – arrisca dizer.

Mesmo que o mod nunca tenha sido tão reconhecido e revolucionário no Brasil quanto o punk ou até mesmo o gótico, a bagunça que começou a ganhar ares de movimento revolucionário nos anos 90 em Porto Alegre foi a princípio o que mais se assemelhou ao verdadeiro espírito da subcultura.
Para Paulo Germano, que hoje faz parte da história daquele efêmero movimento, tudo aquilo era uma forma de se encontrar, de fazer parte de um grupo.

– Não teve a época dos punks, dos emos e agora esses que usam roupas coloridas? Então, na nossa época era daquele jeito. Aquilo nada mais era do que um grupo de adolescentes querendo ser parte de alguma coisa.

Reportagem escrita para a disciplina de Redação Jornalística - Jornalismo Literário

Por Juliete Lunkes

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Reportagem: O ritmo underground da Jamaica

Não fosse por um casal, formado por um negro robusto e uma loura de feições simpáticas, dividindo uma mesa próxima ao palco, e mais uma animada garota de calça estampada dançando sozinha no lado oposto, eu diria que o DJ estava colocando música para um bar vazio. Tudo bem que era uma quinta-feira e o relógio do meu decrépito celular ainda nem marcava meia-noite, mas antes de chegar eu imaginei encontrar outro cenário. Nada que fosse tirar o entusiasmo do DJ e toaster Wilson de Jesus Guichabeira, mais conhecido como W SoulJah, que induzia seus pesados dreadlocks junto com o frenético movimento corporal.

Alguns notívagos fumavam qualquer-coisa escorados na cerca de madeira instalada na areia da praia – vista que o bar proporcionava –, e outros começavam a dar as caras no ambiente peculiar onde W SoulJah reinava absoluto. Marcela, a encantadora garota de cabelos cacheados e calça estampada, agora sacudia no ar dois malabares cobertos de tecido e fitas coloridas, enquanto a voz do toaster acompanhava o som saído das caixas de som em alguns improvisos.

– Se você quiser pode chegar e dançar – Cantava o enérgico W SoulJah.

O som que toma conta do ambiente não é nada parecido com o que se ouve
normalmente por aí. Trata-se do dub, estilo criado na Jamaica na década de 60, que injeta batidas de bateria e impetuosas linhas de baixo e efeitos sonoros em ritmos como o reggae. Por cima do compasso instrumental, os toasters criam as mais variadas e expressivas rimas, em uma vaga lembrança ao atual e popular hip-hop. A festa que rolava na fresca noite de quinta-feira, no Kwarup Bar, na praia Praia Brava, trazia no flyer o número 1. Era a primeira festa dub promovida por aqui. E certamente não seria a última.

Mais do que um simples estilo de música, o dub é para os jamaicanos uma filosofia, uma forma de conhecer e misturar sons e efeitos diferentes. Há cerca de cinco décadas, quando o dub dava seus primeiros suspiros, quase não havia tecnologia para tanto experimentalismo. Hoje, porém, mesmo com as mais modernas técnicas disponíveis, o estilo ainda é pouco conhecido no Brasil.

– Por isso eu resolvi fazer essas festas. Já tava de saco cheio de ouvir esses reggaes de cachoeira – Desabafou Wilson alguns dias depois da festa, já pensando em como será a próxima.

Cultivando boas ações

– O que era aquele negócio que tu tava girando no ar antes? – Pergunto para Marcela após saber seu nome e explicar o que eu fazia por ali.

– Ah, aquilo? É um swing. Tu podia falar com aquele cara lá, ele é jamaicano – apontava Marcela animada para o negro sentado próximo ao palco, que agora trocava carinhos com sua companheira de mesa – E depois vai ter uns caras muito legais aqui!

O swing, vim a saber mais tarde conversando com Wilson, são duas bolinhas feitas com grãos de arroz envoltos por um plástico. Depois de prontas, as bolinhas de arroz são revestidas com um tecido que é trançado, formando então um pêndulo.

– E aqueles foram confeccionados por ela mesma – Explicou-me Wilson, pacientemente.

Durante seus meneios e improvisos, W SoulJah informava ao seu público ainda modesto que a atração principal da noite logo estaria ali. Eram os tais caras legais mencionados por Marcela momentos atrás. Uma dupla paranaense de Sound System influenciada diretamente pelo dub, o Cidade Verde Sound System.
Não demorou até surgir ao lado de W SoulJah o duo formado por Paulo Dubmastor e Guilherme Adonai. O primeiro era responsável pelo ritmo, enquanto Adonai, um rapaz que aparentava ter seus 20 e poucos anos, também de dreadloks no cabelo, circulava pelo palco com um microfone em mãos. Gente de todo o tipo agora deixava as mesas do lado de fora do bar e o cercado da praia para entrar no clima envolvente do ritmo jamaicano. Os mais interessados uniam-se intrépidos cada vez mais perto do palco e da incrível energia do cantor.

Entre os festivos, aproximou-se uma garota com várias tatuagens espalhadas pelo corpo, alguns piercings no rosto e cabelo de tom alaranjado. Visivelmente deslocada no ambiente pouco familiar, Alana me disse ter precisado da ajuda dos amigos para se vestir adequadamente ao local.

– Eu não tinha nada pra fazer, aí falaram que ia ter isso hoje aqui. Eu nem sabia o que vestir! Tava com uma blusa cheia de tachas, mas não me deixaram sair de casa daquele jeito.

O som alto e ritmado promovido pela Cidade Verde quase obriga as pessoas a não ficarem imóveis. As letras cheias de personalidade, quase um manifesto, são reflexo direto da vida da dupla. A plenos pulmões, Guilherme Adonai canta que rejeita quem tenta mudar seu jeito de viver e de pensar, para em seguida falar sobre cultivar boas ações. À medida que a festa da Cidade Verde vai ficando ainda melhor, com a participação do jamaicano Eek a Mouse – o negro robusto – e do próprio W SoulJah, ela chega ao fim, deixando no ar a mensagem positiva e a mistura das energias díspares do público que os prestigiava.

Publicada no jornal universitário Cobaia - Escrita para a disciplina de Jornalismo Literário

Por Juliete Lunkes

quinta-feira, julho 01, 2010

Reino Fungi: Rock'n' roll de brechó

Um pouco acima da porta do estúdio, sem chamar a atenção dos desavisados, um quadro da capa do disco Let It Be, dos Beatles, parece ter a mesma intenção daquelas placas de boas vindas. Bem na entrada, os cinco músicos conversam animadamente sobre as andanças do novo disco que está para ser lançado. Vitor, Tiago, Hugues, Rômulo e Hesséx formam a banda Reino Fungi. O figurino, os cortes de cabelo e a moda que escolheram, evidenciam o grupo nas ruas de Joinville. Talvez se estivéssemos em 1967, na fila de um show do Roberto Carlos, ou dando uma volta pela Abbey Road, em Londres, eles poderiam se misturar aos seus semelhantes.

“Isso começou no nosso primeiro show, em 2001. A gente queria criar uma identidade, uma coisa mais de grupo, de banda, saca? Então fomos até uma loja de noivas e alugamos camisa, gravata, essas coisas”, conta o baterista Hugues Torres. O show foi no jantar de fim de ano de um clube de futebol. No repertório estava tudo o que acompanharia o grupo pelos próximos anos: Beatles, Raul Seixas e muita Jovem Guarda. Segundo Hugues, a influência para tocar o rock sessentista vem de casa. “Minha mãe é beatlemaníaca, e meu pai e a mãe do Tiago amam a Jovem Guarda”.

Há quase dez anos, quando surgiram, não havia nada atual que pudesse explicar a opção daqueles jovens. Na época, eram um quarteto de primos e irmãos, vestidos de terno e gravata de brechó, tocando músicas que poderiam muito bem ter feito sucesso 40 anos antes. Ao contrário de serem bem vistos ou considerados artistas de vanguarda, estavam mais para “retardados” fazendo algo que ninguém entendia. Mais tarde, com o surgimento de outras bandas, a ideia foi fundamentada. Em 2004, a Reino Fungi lançava seu primeiro disco.

O álbum homônimo causou alvoroço no underground catarinense e, de repente, já somavam fãs nos três estados do sul e em parte do sudeste do país. Participações em programas de televisão e o grande número de shows no estado de São Paulo fizeram a banda se mudar para a capital paulista em 2007. A mudança resultou em uma troca de integrantes e um novo disco pronto para estourar. O Reino Fungi e o Clube do Chá Dançante inseriu a banda em um rótulo difícil de ser deixado de lado. Eles passaram a ser “a banda com um som meio Jovem Guarda”.

Da garagem aos holofotes

Assistindo a um programa de televisão local em Joinville, o empresário Arnaldo Fortuna viu naqueles caras uma espécie de releitura do que viveu na década de 60. Antes de o Reino Fungi alcançar qualquer objetivo maior fora dos limites de Joinville, Arnaldo os convidou para abrir o show da dupla jovemguardista Os Vips, organizado por ele. “A gente era uma banda de porão e, de repente, estávamos tocando para a alta sociedade joinvillense”, lembra Hugues. As pessoas gostaram tanto do show que pediram se eles não poderiam voltar ao palco depois da atração principal. Passados uns dias da apresentação, Arnaldo tornou-se empresário do Reino Fungi.

Aficionado pela Jovem Guarda e fã incondicional de Roberto Carlos, Arnaldo alimenta desde muito cedo essa paixão. “Em 1967, com nove anos de idade, fui ao lançamento do longa-metragem Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. A partir daí me tornei um admirador do movimento musical mais popular que já aconteceu no Brasil, a Jovem Guarda.”. A parceria entre o empresário e a banda durou quatro anos e, segundo Arnaldo, o contrato não foi renovado porque os garotos estavam querendo se dedicar mais aos estudos e menos à banda. “Dessa forma não precisariam mais de alguém que os orientasse para uma carreira em nível nacional.”.

A relação da banda com Arnaldo foi temperada por alguns desentendimentos, mas tornou-se uma grande escalada. Ele era focado em seus objetivos e não media esforços para chegar aonde queria, o que muitas vezes tornava as coisas complicadas para os garotos. “Mas foi bacana”, admite o baixista Vitor Torres, “foi uma época de bastante profissionalização na banda”. O guitarrista e vocalista Tiago Lanznaster se apressa a concordar. “É, o Arnaldo tinha os contatos fundamentais que uma banda precisa”.

A verdade é que muito do que aconteceu ao Reino Fungi não seria possível não fosse a audácia do jovemguardista Arnaldo Fortuna. “O Rômulo até ganhou umas rugas”, brinca Hugues enquanto o guitarrista Rômulo Plank fazia uma careta e o resto da banda caía na gargalhada. Apesar das piadas, logo todos concordaram com Hugues. “Ele amava o Reino Fungi e sempre trabalhou muito por nós. A gente tem que reconhecer isso”. A banda descobriu com Arnaldo que fazer Rock’n’roll é coisa séria. “Não é só porque é rock que tem que ser uma coisa relaxada”, dispara Vitor.

Depois que o segundo disco foi lançado, trazendo composições descaradamente jovemguardistas e regravações de Renato e seus Blue Caps, a banda foi convidada a participar de um especial dos 40 anos da Jovem Guarda na Rede Record. “Nós fomos a única banda que não participou da Jovem Guarda e que foi convidada a tocar no programa”, contam orgulhosos. Mais tarde também fizeram parte do disco tributo ao White Album dos Beatles, ao lado de artistas como Zé Ramalho, Zélia Duncan e Lobão.

Os dois anos de intervalo entre o lançamento do primeiro disco até o Clube do Chá proporcionaram novas descobertas que foram absorvidas e traduzidas em um único álbum. “Nós éramos uma banda de rock anos 60 e de repente estávamos sendo apresentados para as pessoas que faziam rock nos anos 60 aqui no Brasil”, comenta Hugues se referindo aos grandes nomes da Jovem Guarda que conheceram nesse período. “Nós tivemos a oportunidade de trocar uma ideia com o Roberto Carlos no camarim”.

Amigo próximo da cantora jovemguardista Martinha e devidamente apresentado à grande parte dos músicos que lançaram o rock no Brasil na década de 60, não havia como o ex-empresário levá-los para outra direção. “O Arnaldo veio com esse lance de fazer show do Renato e seus Blue Caps, da Martinha, Jerry Adriani. Nós estávamos imersos nesse universo musical. Não tinha como ser diferente, era só o que agente escutava e conversava”, defende Hugues.

Quem se define, se limita

Passados quatro anos desde o lançamento do Clube do Chá Dançante, a banda, que agora é um quinteto, prepara-se para o lançamento do terceiro disco. A entrada do tecladista Hesséx Cognaco já é capaz de revelar algumas mudanças. “Nesse disco, além do que a gente já carregava, há coisas novas que fomos descobrindo individualmente. No disco anterior foi uma descoberta coletiva. Nesse, foi de forma separada”, explicam.

A ideia do terceiro disco é sair um pouco desse universo exclusivamente jovemguardista e acrescentar novas influências entre as que sempre acompanharam o grupo. “Se tu ouvir o primeiro disco, vê que ele não nada a ver com Jovem Guarda”, diz Rômulo. Pensativo, Vitor dispara logo em seguida: “Mas, as pessoas podem ouvir esse e se identificar com a Jovem Guarda. É uma loucura isso!”.

O álbum, que está em fase final, tem a produção assinada pelo jovem e experiente Gabriel Vieira. “Ele é um produtor que gravou de tudo. Samba, gauchesca, orquestra”, conta Hugues. “É bacana ter uma pessoa assim na gravação do disco. O Gabriel é um cara extremamente musical e profissional”, elogia Vitor. Com 22 anos, Gabriel já produziu dezenas de bandas diferentes. Aos 14, montou seu estúdio, e com 16, produziu a primeira banda profissionalmente

Sobre o novo trabalho do Reino Fungi, Gabriel revela estar bem diferente dos anteriores. “Acho que está mais original. Novas influências contribuíram e a mescla de novos instrumentos e ritmos também”. O grupo diz que as músicas estão tão diferentes umas das outras e que o álbum pode não ser compreendido. Mas Gabriel é enfático. “Na música não existem leis. Posso citar vários discos com músicas bem diferentes, mas que se conectam. O Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, é um exemplo”.

Para o quinteto, esse trabalho é uma soma de experiências. “É como na vida. O Reino Fungi é um ser vivo. Não tinha como a gente ficar só nesse lance Jovem Guarda”. E Hugues ainda sugere: “Tem uma frase que eu li essa semana, pode por ela como título dessa nova fase do Reino Fungi”, em um gesto de enquadramento com as mãos, diz: “quem se define, se limita”.

Publicado na revista Palavra de Jornalista

Por Juliete Lunkes


sexta-feira, junho 11, 2010

Livros que atravessam o tempo

O ambiente é aconchegante e o cheiro bastante característico. Prateleiras forram as paredes do chão até o teto, e nelas, muitas histórias em páginas amareladas e capas marcadas pelo tempo. São centenas e, às vezes, milhares de livros de todos os tamanhos, assuntos, autores e idiomas. São discos de vinil, revistas, histórias em quadrinhos e até objetos eletrônicos e de decoração antigos. Assim é a maioria dos sebos, uma espécie de templo onde os livros são os herois dos fiéis frequentadores. A diferença entre comprar um livro de um sebo e outro novinho de uma livraria, é que o comprado no sebo tem duas histórias. E uma delas você provavelmente nunca vai conhecer.

Localizado em uma popular galeria de Balneário Camboriú, quase imperceptível em meio a outras lojas e ostentando apenas um simples letreiro com os dizeres “sebo e livraria”, um desses pequenos templos de velhas histórias começa a dar seus primeiros passos. Inaugurado há pouco mais de um ano, o sebo conta com um acervo em crescente expansão e um ambiente cuidadosamente decorado pela proprietária Natassia Chandoha. Banquinhos, poltronas e tapetes pelo chão provocam junto com os livros nas prateleiras e a caixa de discos de vinil no chão a exata sensação a que estão destinadas: deixar o ambiente confortável e aconchegante, afinal, ninguém fica apenas alguns minutinhos dentro de um sebo.

Os frequentadores assíduos, diz Natassia, não possuem um perfil exato. Ao menos não no seu sebo. “Aqui vem desde crianças até velhinhos de 80 anos”. Mas ao menos duas coisas todos têm em comum: gostam muito de livros e costumam gastar bastante tempo dentro do sebo. “Por isso coloquei os banquinhos. As pessoas podem sentar e ficar folheando os livros”. No sebo da Natassia, o investimento maior é sempre em livros. Os vinis ainda não são tão procurados. “Eles são mais para colecionadores mesmo”, explica a dona.

Há alguns quilômetros dali, já com 19 anos de existência e ostentando o título de mais antigo sebo de Itajaí e um dos maiores e mais antigos de Santa Catarina, o sebo Casa Aberta não é assim tão diferente do sebo de Natassia. Lá as pessoas também costumam gastar vários minutos do seu dia andando pelos mais de 40 mil títulos que o sebo oferece. Segundo a funcionária Deborah Lins, algumas pessoas já têm na cabeça o que querem quando entram no sebo, e, se não tem à venda, vão embora. Outros acabam procurando alguma outra coisa e levando. Mas há outros ainda que vão só para passear mesmo. Trinta minutos é o tempo médio que as pessoas gastam circulando por lá.

A faixa etária dos frequentadores também é eclética, “mas a maioria acho que são os jovens”, revela Deborah, entrando em acordo com a proprietária do sebo, Ivana Severino. Os livros que mais saem são os de literatura, embora várias senhoras aproveitem o sebo para adquirir as revistas românticas Júlia ou Sabrina por um bom preço. No acervo de discos de vinil, mais de cinco mil títulos lotam as estantes, “e a procura maior é por discos de rock”, conta Ivana. Segundo ela, o preço baixo dos vinis e o fato de só colecionadores os procurarem, fazem com que os deste gênero acabem saindo rápido. “Às vezes eu até vendo pra outros sebos revenderem”.

Se no pequeno sebo de Balneário Camboriú o ambiente foi minuciosamente preparado para ser tranquilo e aconchegante, na Casa Aberta as coisas não são muito diferentes. Apesar do grande fluxo de pessoas rodeando as estantes o tempo todo, o ambiente consegue conservar o minimalismo. Mesinhas com cadeiras e alguns banquinhos, que às vezes são usados como apoio quando alguém não alcança algum livro na estante, revelam que ali o cliente pode ficar à vontade. Pode folhear algumas páginas, ler algumas linhas e sentir o que o livro é capaz de passar, além da história escrita em suas folhas.

Quadrinhos raros para fãs

Fã assumido do ambiente cheio de personalidade dos sebos, o estudante Ricardo Souza os visita ao menos três vezes por semana. Influenciado pelo irmão mais velho, que trocava gibis em um sebo quando Ricardo tinha 10 anos, ele costuma ficar em média trinta minutos vasculhando os livros nas estantes. E, se pudesse, ficaria ainda mais tempo. “Mas tem faculdade e trabalho, não tenho tanto tempo pra curtir o sebo”, lamenta. Depois que finalmente adquiriu toda a saga “Terremoto”, do Batman, Ricardo agora costuma ir ao sebo sem muita ideia do que vai levar. “Eu fico olhando e o que eu achar interessante, levo”.

Para Ricardo, o mais legal dos sebos é a proximidade que ele proporciona com a cultura que as pessoas não puderam vivenciar. “Gosto muito das obras dos anos 70, 80 e 90, que foram lançadas quando eu nem tinha nascido ou era muito pequeno. Entrar num sebo é uma sensação única, é reviver o passado e suas grandes obras”, explica. Segundo o estudante, os sebos têm valor intangível. Ele não frequenta apenas pensando em adquirir mais obras para aumentar sua coleção, mas para conhecer e cultuar obras de uma época distante.

Ricardo já achou tantas obras clássicas e interessantes no sebo que mal consegue listar. Uma delas, “talvez a mais legal que eu tenha achado”, foi uma edição antiga da Liga da Justiça. “Ela era dos anos 60, era em preto e branco ainda e mostrava o encontro da Liga da Justiça com a Sociedade da Justiça”, comemora o fã de quadrinhos. Mas a alegria de encontrar a rara edição, logo se transformou em tristeza. “Infelizmente eu perdi ela na enchente de 2008”.

Seja para passar o tempo de uma tarde chuvosa, para encontrar obras que não existem mais nas livrarias, ou até mesmo para economizar, frequentar sebos é sempre uma aventura. As marcas do tempo, as folhas ásperas e algumas palavras rabiscadas a caneta pelo antigo dono de algum livro, dão a ele um aspecto diferente. Um livro, ou outro objeto qualquer comprado em um sebo, já vem com sua própria personalidade, e, não raras, às vezes, é muito mais atraente do que tirar o plástico de livro um novo.

Publicado na edição Online do jornal universitário Cobaia

Por Juliete Lunkes

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Release: Banda Torneiras

Engana-se quem pensa que para uma música ser boa ela precisa ser composta de muitos acordes e solos intermináveis. Com uma boa dose de criatividade e excelentes influências que vão do mod sessentista ao indie rock atual, a Torneiras prova que nem só de notas espirituosas vive o rock’n’roll.
Com pouco mais de um ano de existência, o trio de Itajaí, cidade do litoral catarinense, aposta na simplicidade e na criatividade para compor suas músicas. Brechós, garotas loucas, paletós puídos, os anos 60 e a falta de bares “triafudê” são detalhes que fazem parte da vida dos três e não poderiam deixar de ser parte também de suas letras.
Como toda banda em ascensão, tiveram suas primeiras composições gravadas em casa, com ajuda de um amigo. Apesar das precárias condições de gravação, foi só depois dos três primeiros singles lançados na internet que eles puderam realmente sentir o cheiro das estradas e dos palcos.
Suas melodias dançantes e refrões grudentos combinariam facilmente com os ruídos de um disco de vinil e poderiam muito bem animar uma pista de dança formada por jovens garotas de saia rodada. Aos poucos o trio começa a cair no gosto dos órfãos amantes do moderno indie rock e do rock’n’roll com cheiro de velho do Vale do Itajaí.
A Torneiras busca na simplicidade de suas melodias fugir da mesmice e fazer um rock puro, energético e dançante, sem firulas ou experimentalismos. Chama a atenção pela ousadia de querer ser Beatles, Velvet Underground, Libertines e TNT, tudo ao mesmo tempo. E espanta por conseguir ser um pouquinho de cada um e de mais centenas de outros e, no fim, soar original e sincero.


A banda fixou-se com esse nome e formação no primeiro semestre de 2008. Depois de longos meses de ensaio, no final do mesmo ano o trio inaugurou sua agenda de shows e finalmente subiu ao palco. A primeira apresentação da banda foi em Balneário Camboriú, cidade vizinha de Itajai, já com cinco músicas próprias no repertório.
No ano seguinte foram gravados os três primeiros singles: “Não estou lá”, “Uma mente sem lembranças” e “Juliete Lexotan 3mg”. Com o sucesso das músicas e do divertido vídeo de “Uma mente sem lembranças”, a Torneiras acabou fazendo mais shows em Balneário Camboriú, pegou a estrada para Blumenau e Brusque, e finalmente tocou em sua cidade natal, Itajaí. Através do projeto Barba Ruiva Convida, também em 2009, a Torneiras teve a música “Juliete Lexotan 3mg” incluída em uma coletânea virtual só de bandas da região.
Este ano, com o lançamento do EP “Tudo é Eventual” e do videoclipe caseiro da música “Guria Retrô”, o trio alcançou admiradores de lugares um pouco mais distantes e já abre sua a agenda de 2010 com o Carnarock de Joinville.

Publicado no Myspace da banda Torneiras.

Por Juliete Lunkes