quinta-feira, julho 31, 2014

Tequila Baby traz a Florianópolis nesta sexta-feira o pré-show que comemora os 20 anos de carreira da banda gaúcha

Eles mal haviam saído da adolescência quando, em 1994, influenciados pelos ídolos Ramones decidiram fazer mais do que apenas continuar ouvindo o LP “Rocket to Russia” ininterruptamente no toca-discos. Vestidos em pesadas jaquetas de couro e nada afeitos a cortes de cabelo tradicionais, os quatro guris moradores de Porto Alegre fundaram o Tequila Baby e pouco demoraram a evadir as quatro paredes da garagem e irem parar em palcos alternativos de todo o Rio Grande do Sul. Exatamente duas décadas depois, com nova formação, o grupo traz amanhã à Célula Showcase, em Florianópolis, o pré-show comemorativo da data, que deve estrear oficialmente apenas em outubro.  
Os 20 anos de estrada e os oito álbuns lançados – seis de estúdio e dois ao vivo, um deles com participação de Marky Ramone – deram ao Tequila Baby a oportunidade de ver mais de uma geração de jovens se acotovelar em frente ao palco enquanto provam todo o conhecimento de letras como a de “Sexo, Algemas e Cinta-liga” e “Sangue, Ouro e Pólvora”. “Hoje nos shows tem até avô levando neto”, diz o vocalista Duda Calvin antes de soltar uma sonora gargalhada. “Não, mas é sério. Nosso roadie já é avô, e em 1994, quando a gente começou, já tinha um pessoal de 30 e poucos anos que gostava da banda, então agora eles já têm seus 50 e tantos, já são avôs. Mas rola muito de os próprios filhos levarem os pais”, observa. Além dele e do guitarrista James Andrew, também remanescente da formação original, hoje ainda fazem parte do Tequila Baby o baterista Rafael Heck, o baixista Rodrigo Gaspareto e o guitarrista Williams Duarte.
Para Duda, que viu crescer não somente a banda, mas os fãs e o próprio cenário roqueiro, especialmente o do Sul do país, chegar aos 43 anos no mesmo grupo que formou aos 23 ainda soa surpreendente. “Isso é algo que a gente nunca esperou. Quando tu montas uma banda não pensa que ela vai durar tanto tempo”, admite.

Militância musical
Filho de pai catarinense e mãe gaúcha, Duda Calvin já perdeu as contas de para quantas cidades de Santa Catarina já teve a oportunidade de levar o punk rock do Tequila Baby nesses 20 anos, e por isso tem um certo know-how para perceber alguns dos obstáculos que os artistas locais enfrentam  ao tentar  se desenvolver no Estado. “O que precisa acontecer aí é uma união. Cada cidade ouve e respira só a música daquela determinada cidade, Santa Catarina precisa que isso converse melhor. Cada vez que eu vou conheço um monte de bandas novas”, diz.
Há algum tempo Duda tem rodado por aí com outra atividade que embora não envolva instrumentos musicais, também gira entorno do rock. Cerca de quatro vezes por semana ele fica frente a frente com jovens cheios de ideias e vontade de criar com a palestra gratuita chamada “Cadê a Música”. “Ali eu vejo como o pessoal ainda tem umas ideias muito antigas, especialmente com essa questão de gravadora, que é algo que morreu. As bandas não precisam mais de gravadora”, diz.

A militância em prol da música e especialmente dos jovens que querem viver da arte fez o vocalista tomar uma decisão um pouco mais radical, e agora ele é candidato a deputado estadual pelo Rio Grande do Sul. Entre suas lutas políticas está especialmente a valorização dos artistas locais, também para que o dinheiro investido na arte permaneça em seu Estado. “Cada dia surgem novos artistas que não conseguem entrar no mercado de trabalho, é uma massa de gente atrás de seu lugar ao sol. Os mais jovens são os que estão precisando, quero conversar com quem está começando”, conclui. 

domingo, julho 27, 2014

Na próxima quarta-feira, a cidade de Paraty abre seus braços para os amantes da literatura em mais uma edição da Flip

Pelo 12° ano consecutivo, ao longo de cinco dias as ruas repletas de história da pequena cidade fluminense de Paraty ficarão tomadas por amantes da literatura vindos de todos os cantos do país. Na próxima quarta-feira (30), com a abertura da programação oficial da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e de outros três eventos paralelos – Flipinha, FlipMais e FlipZona –, 25 mil pessoas deverão se espalhar pela Tenda dos Autores, Casa de Cultura, Casa Azul e outros espaços da cidade para absorver o que têm a dizer alguns dos principais autores contemporâneos do Brasil e do mundo.
Com curadoria do jornalista Paulo Werneck, a edição 2014 da maior festa literária do país, que dessa vez tem Millôr Fernandes como homenageado, mantém a tradição de rechear a programação com nomes ecléticos que não têm a literatura como principal atividade profissional. Ao mesmo tempo, aposta no ineditismo, trazendo para a roda pela primeira vez em 12 anos um autor russo.
“Estamos em uma fase muito boa de tradução de escritores russos, sobretudo de clássicos. Temos uma bela e já consistente biblioteca de autores de lá, então as editoras começaram a prestar mais atenção nos contemporâneos, como Vladímir Sorókin. Fico feliz que Flip esteja fazendo parte desse momento”, afirma o curador.
Nomes como o da cantora Adriana Calcanhotto, dos atores Gregório Duvivier e Fernanda Torres, além de fotógrafos, arquitetos e profissionais de diferentes áreas se encontram nas 20 mesas da programação principal sob o fio condutor da escrita, em que todos já se aventuraram. De acordo com Werneck, essa pluralidade de experiências já faz parte da essência da festa. “Desde o começo a Flip sempre trouxe autores ecléticos, críticos, músicos, psicanalistas. É uma mistura cultural e a literatura é uma afinação disso tudo. A literatura hoje não é mais uma área isolada, então ao chamá-los eu quis garantir essa versatilidade”, justifica.
Aos 36 anos, Paulo já participou de quase todas as edições da Flip, como espectador, convidado, jornalista, editor e como filho de um dos participantes, o cronista Humberto Werneck. A experiência de olhar de fora para todo o conjunto da festa o transformou em um curador atento e preparado para assumir a função que nos últimos dois anos foi do jornalista Miguel Conde. “Como observador eu já tinha em mente autores que eu achava injusto ainda não terem participado, mas claro que dependia também da disponibilidade deles. Levei muitos nãos”, revela Paulo, que garante ter tido liberdade total para montar a programação. “Tiro o chapéu para a (presidente do conselho diretor) Liz Calder e o (diretor-geral) Mauro Munhoz, a curadoria não teve nenhuma intromissão. A primeira grande conversa que tivemos foi sobre o homenageado, e fiquei muito feliz quando foi definido que seria o Millôr, ele é o escritor da minha vida”, diz. “Não consigo olhar para as outras edições como vejo essa, mas todas foram muito boas e eu não quis inventar moda, mantive o que a Flip sempre teve de melhor”, conclui.

Cenários paralelos
Às margens das 20 mesas que compõem a programação principal da festa, os shows, exposições de arte e eventos paralelos espalhados por Paraty também são destino certeiro de quem desembarcar na cidade nos próximos dias. Na FlipMais, com apenas R$12 e ingressos que começam a ser vendidos na véspera de cada mesa, os espectadores poderão participar de mais uma série de boas discussões entre quinta-feira e sábado.
Em meio aos destaques dessa edição da FlipMais está a mesa “A poesia e seus caminhos de fazer ler”, em que participam Flávio Araújo, Luís Dill, Ninfa Parreiras e Simone Monteiro de Araújo, com mediação de Volnei Canônica. A partir da leitura de um poema que marcou a infância dos participantes do painel, cada um deles falará sobre a experiência com a leitura de poesia em sua vida. A ideia é debater sobre como a poesia pode levar à outros gêneros literários.
“Isso foi algo que aconteceu comigo e hoje trabalho muito com a poesia. É um gênero difícil, nem todos gostam e é preciso valorizá-lo, fazer com que poemas sejam lidos”, afirma a escritora, professora e psicanalista Ninfa Parreiras.  Com 19 livros publicados, sendo 13 de literatura infanto-juvenil, Ninfa adianta que levará à mesa o poema “A Cancão dos Tamaquinhos”, de Cecília Meireles. “Esse poema me marcou muito. Eu li quando tinha uns sete ou oito anos e aquela coisa do som do tamanco me chamou muita atenção. Eu decorei na época”, conta.
Esse é o terceiro ano consecutivo que a escritora participa de mesas da FlipMais, e com a experiência em Paraty acabou virando fã das programações não oficiais da festa. “A Flip é sempre muito variada, tem atrações para todos os gostos e mesmo que você não consiga ingresso para a programação principal, há uma série de eventos paralelos espalhados pela cidade, organizados até por outras instituições, e muitas vezes são gratuitos”, dá a dica.
“Sei que vão muitas celebridades para lá, mas eu gosto mesmo é do que se encontra nas ruas. A gente fica se equilibrando naquelas pedras das ruas de Paraty e de repente encontra o Luis Fernando Veríssimo ao lado de um poeta anônimo”.


Espelho para Santa Catarina
Veterano em participações como espectador da Flip, o escritor catarinense de Jaraguá do Sul Carlos Henrique Schroeder acompanha o evento desde seu primeiro ano e esteve presente em cinco edições da festa. Embora não vá a Paraty este ano, elogiou a programação e destacou a presença de autores internacionais como Jhumpa Lahiri, Andrew Solomon e o próprio Sorókin. Nome por trás da organização de alguns dos principais eventos literários de Santa Catarina, Schroeder vê na Flip mais do que uma fonte de inspiração para novos projetos, mas uma vitrine de autores. 
“Ano passado participei de um debate com o Mauro Munhoz, diretor da Flip, e conheci também o curador Paulo Werneck. É sem dúvidas um evento popular muito importante, que aponta tendências e mostra autores de fora do país”, destaca.
Em 2013, quando a empresa baiana Mirdad Gestão em Cultura viu em Santa Catarina um potencial para receber um evento nos mesmos moldes da festa de Paraty, o escritor foi escalado como curador. A Flisca (Festa Literária Internacional de Santa Catarina) aconteceria em novembro de 2014 e teria em sua programação pelo menos dois nomes escalados também pela Flip deste ano: Solomon e Sorókin. Como a Mirdad acabou mudando o foco e perdendo o interesse em coordenar o evento, a Design Editora, comandada por Schroeder e responsável pela organização da Feira do Livro de Jaraguá do Sul e do Festival Nacional do Conto, em Florianópolis, comprou a marca e está dando continuidade aos preparativos da festa, agora programada para 2015.
De acordo com Schroeder, a Flisca vai se espelhar na Flip especialmente no que diz respeito à programação internacional. “Não temos nada assim no Estado, e a ideia é trazer nomes de peso, pelo menos meia dúzia de autores premiados. O que vai diferenciar da Flip é que além da programação internacional e brasileira, a Flisca dará destaque aos autores do Estado”. Apesar da vasta experiência na organização de eventos literários, ele garante que a Flisca vai ser totalmente diferente de tudo. “É uma festa, uma celebração da literatura, com shows e exposições. Os festivais colocam o autor na vitrine”.
Para cuidar do novo evento, Schroeder já se desligou da coordenação da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, mas não revelou outros detalhes sobre a festa, que provavelmente será fora da Capital, deixando a cidade mais uma vez fora do circuito cultural do país.

Segundo ele, são muitos os fatores que fazem Florianópolis não ter um grande evento literário, e um deles é o tamanho da cidade. “Florianópolis é muito grande, se você faz algo no centro não atinge os bairros, se faz algo nos bairros não atinge o centro. E há também a falta de incentivo dos governos estadual e municipal. Enquanto não houver um diálogo entre eles e a iniciativa privada, não vai dar para fazer nada”, diz. Para ele, apesar de minúscula se comparada à que organiza em sua cidade, a feira do livro promovida na Capital é louvável, por ser uma iniciativa dos próprios livreiros. 

quinta-feira, julho 10, 2014

Coreógrafa e bailarina Deborah Colker traz a Florianópolis novo espetáculo inspirado em “A Bela da Tarde”

Quando a coreógrafa carioca Deborah Colker enfim terminou de montar “Tatyana”, seu penúltimo espetáculo, um vazio existencial típico de quem acabou de colocar para fora uma obra de grande complexidade tomou conta de seus dias e trouxe consigo a imediata inspiração para o próximo trabalho. Da lembrança do filme “A Bela da Tarde”, de Luiz Buñuel, que Deborah assistiu ainda na década de 1970, veio o impulso para a criação de “Belle”, seu novo espetáculo que estreou dia 13 de junho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em seis sessões de casa lotada, e que agora chega a Florianópolis para duas apresentações no teatro do CIC (Centro Integrado de Cultura), nos dias 16 e 17 deste mês.
“A Bela da Tarde surgiu na minha cabeça como um raio. Eu só tinha assistido ao filme em 1978, então fui atrás do livro (“Belle Du Jour”, de Joseph Kessel) e pensei ‘que história envolvente e linda, tenho que fazer’. Mandei todo mundo ler e comecei a pensar em como contar essa história”, revela Deborah.
Na montagem da coreógrafa, a personagem central de “Belle”, Séverine, foi dividida entre duas bailarinas que vivem dois mundos totalmente diferentes. Elas surgem no palco ao lado de outros 15 bailarinos já conhecidos pela precisão, controle e agilidade,
apoiados por uma equipe que reúne alguns dos mais renomados profissionais do campo da arte do país. Entre os colaboradores de Deborah estão João Elias na direção executiva, Gringo Cardia na direção de arte e cenografia, Berna Ceppas na direção musical e Samuel Cirnansck assinando o figurino.
Depois do sucesso da estreia no Rio, Deborah já começou a rodar com “Belle” por cidades brasileiras e não esconde a empolgação com o resultado de meses de dedicação integral. “Fazer um novo espetáculo sempre é sofrido, sempre exige coragem. Você fica em carne viva porque é você ali. Muita gente me perguntou se a Séverine sou eu, e não tem como dizer que não é. O livro é um clássico, o filme é um clássico, e o meu espetáculo é a minha visão, minha dança”, reflete a artista.
Após sair do que ela chama de “a nata da elegância” dos compositores russos que embalaram “Tatyana”, ela aproveitou “Belle” para embarcar no som contemporâneo de Miles Davis e da banda Velvet Underground na trilha elaborada por Berna Ceppas. “A história vem de um livro de 1930, que ficou conhecida com o filme em 1970, então o rock veio cortando a veia com o Velvet Underground, e ao mesmo tempo tem o Miles Davis, tão sensual e cerebral. É uma trilha meio cinematográfica”, aponta.

Duas décadas de dança
Há 21 anos Deborah Colker comanda no Rio de Janeiro a companhia de dança que leva seu nome e há 11 mantém também na Capital fluminense, na casa onde morou o pintor catarinense Victor Meirelles, sua própria escola de dança. Consolidada como um dos principais nomes da dança no Brasil, ela é atualmente responsável por 800 alunos matriculados na escola, entre crianças e adultos, espalhados pelos cursos de ballet clássico, dança contemporânea, jazz, sapateado e teatro.
Desde sua fundação, em 1993, a Cia Deborah Colker já soma 11 espetáculos montados, a maioria com patrocínio exclusivo da Petrobrás, que agora divide o apoio com a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.

sábado, junho 28, 2014

Há 29 anos Santa Catarina perdia Luiz Henrique Rosa, um dos músicos mais importantes do Estado

Na noite do dia 9 de julho de 1985, uma Kombi em alta velocidade cruzava o bairro Pantanal em direção ao Saco dos Limões, em Florianópolis, quando o motorista perdeu o controle e colidiu com um carro lotado de funcionários que haviam acabado de encerrar o expediente no bar Armazém Vieira. O condutor não fazia ideia, mas naquele momento tinha acabado de tirar a vida de um dos mais célebres músicos nascidos em Santa Catarina.
Aos 46 anos, Luiz Henrique Rosa já havia conquistado tudo o que poderia querer da vida. Teve sucesso internacional, músicas que se tornaram clássicos, amigos verdadeiros e uma família feliz, mas ainda assim, durante as quase três décadas que sucederam sua morte, poucos conterrâneos souberam de sua história, conheceram suas músicas ou sequer ouviram falar de seu nome.
Membro da turma carioca formada pelo pessoal descolado da MPB e da bossa nova na década de 1960, Luiz Henrique Rosa jamais chegou a ser tão conhecido no Brasil quanto Jorge Benjor ou Elis Regina, artistas que começaram na mesma época a frequentar o Beco das Garrafas, travessa do bairro Copacabana que concentrava os bares mais boêmios da cidade. Quando chegou ao Rio de Janeiro, Luiz Henrique foi recebido pelo ídolo João Gilberto, fez um show ao lado de Elis Regina, quando nenhum dos dois era conhecido, e gravou seu primeiro disco. As músicas chegaram aos ouvidos de Vinicius de Moraes, que citou seu nome em uma rádio carioca ao ser questionado pelo locutor sobre um novo nome da bossa nova que valia a pena ouvir. O catarinense era então o único músico do Sul do país a fazer parte desse grupo genuinamente carioca que respirava bossa nova.

Carreira internacional
Luiz Henrique nasceu em Tubarão, em 1938, mas passou a maior parte da vida em Florianópolis, para onde se mudou com a família aos 11 anos. Filho de um jogador de futebol – que mais tarde se tornou fiscal da fazenda – com uma nativa de Imbituba, foi o único homem e o mais velho em meio a outras sete irmãs. Seu primeiro contato com a música foi com a percussão, batucando aqui e ali quando a fanfarra da polícia passava em frente a sua casa. Em seguida, foi para a banda da escola tocar caixa, migrou para um bloco de Carnaval, e assumiu o bongô do grupo josefense Os Melódicos. O violão, que o acompanhou durante toda a vida, só entrou nela aos 18 anos, quando pediu ao pai o instrumento de presente após ficar encantado com as rodinhas que os músicos faziam em Jaguaruna, cidade onde havia passado as férias.
Depois de terminar a escola, antes de embarcar para o Rio de Janeiro, ele chegou a trabalhar como desenhista ao lado de arquitetos e engenheiros de Florianópolis, explorando mais um de seus talentos, época em que já vivia com Márcia, sua primeira mulher.
Em 1959, aos 20 anos, a música finalmente passou de hobbie para profissão quando ganhou um programa na rádio Diário da Manhã. A partir daí, não demorou para cair nas graças de um conjunto de Porto Alegre, o primeiro a gravar sua primeira composição, “Se amor é isso”. Mas o trabalho na rádio não durou muito, o que ele queria mesmo era se juntar à turma carioca que fazia sua cabeça.
Durante suas andanças pela cidade maravilhosa, acabou conhecendo o saxofonista americano Paul Winter, amante da bossa nova que se encantou pela música de Luiz Henrique e o convidou para ir aos Estados Unidos. Convite aceito, em 1964 ele fez as malas e partiu rumo ao país com uns trocados no bolso.
 Assim que chegou a Nova York, hospedou-se no hotel 123, na esquina da Brodway com a Times Square, e mais tarde se mudou para um apart-hotel, onde morou com o músico Hermeto Pascoal. Os dois locais eram ponto certeiro de parada de muitos músicos brasileiros que foram para a cidade com a mesma intenção de Luiz Henrique: espalhar brasilidade pelo território americano. Foi lá também que ele passou a conviver com João Gilberto.
Em Nova York ele começou tocando em locais como o Café a Gogo, no Greevinch Village, mas acabou rodando boa parte do país ao lado do grupo de Paul Winter, trabalhou com músicos renomados, como Bob Hecker, Billy Butterfield, Oscar Brown Jr., Nancy Wilson e Liza Minelli, gravou sete discos e firmou seu nome no cenário musical norte-americano, onde permaneceu durante oito anos até voltar para o Brasil, para a cidade onde cresceu.

 Cidade do coração
Quando retornou a Capital catarinense, Luiz Henrique encontrou uma nova geração de músicos e um ambiente totalmente diferente do que tinha deixado anos atrás. Mesmo sem um estúdio de gravações na cidade e com poucos lugares para tocar, a vontade de sossegar na terra que amava falou mais alto que qualquer possibilidade de retornar ao Rio de Janeiro.
No início de junho de 2014, Raulino, segundo filho de Luiz Henrique, divulgou uma entrevista inédita que seu pai concedeu ao jornalista Aramis Millarch em 1979 durante uma ida a Curitiba para gravar novas canções. Na conversa, o músico dizia não ter a menor intenção de deixar sua cidade. “Não tenho pretensões em ser badalado e nem em tocar em mil lugares do mundo. Uma vez ou outra eu posso sair para fazer um show, mas eu quero ficar na minha terra”, afirmou. Sua vontade era reunir os músicos daqui e movimentar a cultura local. “Meu pai achava que, assim como ele conseguiu uma carreira internacional, outros músicos daqui também poderiam conseguir. Ele acreditava nos músicos de Florianópolis”, conta a filha Alicinha.
Ao longo dos anos que viveu em Florianópolis após a volta definitiva, Luiz Henrique continuou ativo a sua maneira. Gravou o hino do Avaí, fez o samba enredo da escola Acadêmicos do Samba, teve um programa na TV Cultura, virou gerente do Armazém Vieira, e finalmente abriu sua própria gravadora.  “Ele tinha vários sonhos, a gravadora era um deles, mas ele também queria criar um museu da imagem e do som e ter um engenho de farinha”, lembra a filha. “Para ele, ter sucesso não significava ter dinheiro ou fama”, completa Raulino.
Durante esse período, Luiz Henrique passou a ficar mais próximo de Alicinha, nascida em 1963 fruto do relacionamento com Márcia Lehmkuhl, e conheceu Patrícia Solange, com quem teve Raulino, em 1981, e Manoel no ano seguinte. Cada um dos filhos, além de carregar a família no nome – Alice o da avó, Raulino o do avô e Manoel Luiz o do próprio pai no segundo nome –, ganhou também uma música especial ao nascer. A canção “Alicinha” chegou a ser regravada por Liza Minelli e Elza Soares, e “Bom Dia”, feita para o segundo filho, foi descoberta há alguns anos pela irmã mais velha enquanto via vídeos do antigo programa do pai. “E a minha música foi perdida”, lamenta Manoel. Mas a irmã garante que é apenas uma questão de tempo para que seja encontrada.
Devoção de Liza Minelli
Luiz Henrique conheceu Liza Minelli em 1966, em Chicago, durante uma apresentação do catarinense na cidade. A cantora viu o show e ficou tão encantada que foi direto ao camarim para conversar com o músico. O entrosamento entre os dois foi tamanho que eles em seguida engataram um breve romance, mas se solidificaram como grandes amigos.
“Eu o conheci quando ele tocava com Oscar Brown Jr. e eu não conseguia prestar atenção no Oscar, ficava olhando para o Luiz. Ele parecia tão sereno, tão musical, tão em paz, estava profundamente imerso na música, sorrindo. Então quando ele cantou um pouco eu achei maravilhoso e nos tornamos amigos”, disse Liza em depoimento para o documentário “Luiz Henrique – No Balanço do Mar”, de Ieda Beck, lançado em 2007.
Eles chegaram a gravar músicas juntos e foi ela quem escreveu a contracapa do disco “Barra Limpa”, de Luiz Henrique. Em 1974 ela veio ao Brasil, desembarcou no Rio de Janeiro e quis de toda a maneira encontrar o amigo, que não via fazia mais de um ano. Ele estava em Florianópolis e quando soube do desejo de Liza, foi imediatamente para o Rio. Esse foi o último encontro dos dois até 1979, quando ela retornou ao Brasil para shows no Rio e em São Paulo e fez questão de uma participação especial de Luiz Henrique em ambos. Depois de cumprir a agenda, a cantora veio passar uns dias em Florianópolis a convite do amigo, causando alvoroço por onde passava.

 Homenagens póstumas
Apesar de pouco lembrado desde sua morte, algumas homenagens ainda tentam manter vivo o legado de Luiz Henrique. Em 2003, músicos como Martinho da Vila, Elza Soares, Ivan Lins, Luiz Melodia, Luiz Meira e Sandra de Sá se reuniram para gravar o disco "A Bossa Sempre Nova de Luiz Henrique", com direito a show de lançamento no teatro do CIC (Centro Integrado de Cultura).
 Em 2007, após oito anos de trabalho, a diretora Ieda Beck lançou o documentário “Luiz Henrique – No Balanço do Mar”, até agora o registro mais completo sobre a vida do catarinense. Ela e a filha Fabíola, que trabalhou como assistente de direção, mergulharam na vida do músico através de depoimentos de familiares, amigos e artistas que conviveram com ele em Florianópolis, Rio de Janeiro e Nova York. “Foi muito surpreendente irmos tão longe e encontrarmos pessoas que conhecem e gostam tanto da obra de Luiz Henrique, enquanto aqui quase ninguém ouviu falar nele. Era só mencionarmos seu nome que as portas se abriam e as pessoas lembravam perfeitamente do que havia acontecido há mais de 20 anos”, conta Fabíola. Segundo ela, quando Liza Minelli soube que um documentário sobre seu grande amigo estava em curso, fez questão de participar dele.

Agora, a ideia dos três filhos de Luiz Henrique é buscar parcerias para criar um memorial do pai, reunindo em um único espaço fotografias, discos, instrumentos e roupas para que as novas gerações possam conhecer a história de um dos mais importantes – e desconhecidos – músicos do Estado.

Publicado no jornal Notícias do Dia

quinta-feira, junho 19, 2014

Banda paulistana Bixiga 70 é uma as atrações do feriadão em Florianópolis

Há aproximadamente quatro anos um grupo de dez músicos já conhecidos da cena paulistana decidiu unir instrumentos e experiências para dar origem ao Bixiga 70, nome alusivo ao boêmio bairro da cidade em que está localizado o estúdio Traquitana – onde todos eles já desenvolviam trabalhos –, e ao número do prédio. Em uma aposta certeira na mistura de ritmos africanos com jazz, música negra americana, caribenha, dub e rock, a superbanda instrumental desde então já se habituou aos palcos de todo o país, e também aos voos internacionais, e chega amanhã a Florianópolis com o show de lançamento de seu segundo disco. O Bixiga 70 sobe ao palco do Green Park, onde também se apresentam o músico Curumin e o grupo de percussão e dança africana Abayomi, em uma das atrações que recheiam a programação do feriadão na Ilha.
Apesar de juntar uma dezena de cabeças cheias de ideias e referências musicais, desde as composições do primeiro álbum, lançado em 2011, a banda consegue agregar habilidades de todos os integrantes nos arranjos. “Temos um processo de composição coletivo, todo mundo está confortável, todos nós temos experiências anteriores de outros projetos e há uma maturidade para explorar o que cada um propõe”, explica o trompetista Daniel Gralha.
E não é só no estúdio que o entrosamento do grupo parece fluir com perfeição. As apresentações ao vivo, sempre cheias de energia, já renderam ao Bixiga 70 convites para importantes festivais internacionais, como o Felabration, na Holanda, o Roskilde, na Dinamarca, e o Aux Heures d'Eté, na França, locais que juntam um considerável público interessado pelo que vem do Brasil.
“Fora do país, especialmente na Europa, há um circuito e uma valorização maior da musica instrumental, e não só dela. Agora, em relação ao público a recepção é a basicamente a mesma que temos em shows no Brasil, porque não há uma barreira de idioma”, pontua Daniel.


Segundo o músico, a vinda à Capital catarinense supre uma necessidade antiga que a banda sentia de vir mais vezes para a região sul. “A gente tenta, tenta, tenta ir para o sul e é sempre complicado, então estão muitos felizes de poder tocar aí agora. Vamos com o repertório do show de lançamento do segundo disco, que também tem algumas do primeiro e também faixas inéditas”, adianta.

Publicado no jornal Notícias do Dia