sexta-feira, junho 11, 2010

Livros que atravessam o tempo

O ambiente é aconchegante e o cheiro bastante característico. Prateleiras forram as paredes do chão até o teto, e nelas, muitas histórias em páginas amareladas e capas marcadas pelo tempo. São centenas e, às vezes, milhares de livros de todos os tamanhos, assuntos, autores e idiomas. São discos de vinil, revistas, histórias em quadrinhos e até objetos eletrônicos e de decoração antigos. Assim é a maioria dos sebos, uma espécie de templo onde os livros são os herois dos fiéis frequentadores. A diferença entre comprar um livro de um sebo e outro novinho de uma livraria, é que o comprado no sebo tem duas histórias. E uma delas você provavelmente nunca vai conhecer.

Localizado em uma popular galeria de Balneário Camboriú, quase imperceptível em meio a outras lojas e ostentando apenas um simples letreiro com os dizeres “sebo e livraria”, um desses pequenos templos de velhas histórias começa a dar seus primeiros passos. Inaugurado há pouco mais de um ano, o sebo conta com um acervo em crescente expansão e um ambiente cuidadosamente decorado pela proprietária Natassia Chandoha. Banquinhos, poltronas e tapetes pelo chão provocam junto com os livros nas prateleiras e a caixa de discos de vinil no chão a exata sensação a que estão destinadas: deixar o ambiente confortável e aconchegante, afinal, ninguém fica apenas alguns minutinhos dentro de um sebo.

Os frequentadores assíduos, diz Natassia, não possuem um perfil exato. Ao menos não no seu sebo. “Aqui vem desde crianças até velhinhos de 80 anos”. Mas ao menos duas coisas todos têm em comum: gostam muito de livros e costumam gastar bastante tempo dentro do sebo. “Por isso coloquei os banquinhos. As pessoas podem sentar e ficar folheando os livros”. No sebo da Natassia, o investimento maior é sempre em livros. Os vinis ainda não são tão procurados. “Eles são mais para colecionadores mesmo”, explica a dona.

Há alguns quilômetros dali, já com 19 anos de existência e ostentando o título de mais antigo sebo de Itajaí e um dos maiores e mais antigos de Santa Catarina, o sebo Casa Aberta não é assim tão diferente do sebo de Natassia. Lá as pessoas também costumam gastar vários minutos do seu dia andando pelos mais de 40 mil títulos que o sebo oferece. Segundo a funcionária Deborah Lins, algumas pessoas já têm na cabeça o que querem quando entram no sebo, e, se não tem à venda, vão embora. Outros acabam procurando alguma outra coisa e levando. Mas há outros ainda que vão só para passear mesmo. Trinta minutos é o tempo médio que as pessoas gastam circulando por lá.

A faixa etária dos frequentadores também é eclética, “mas a maioria acho que são os jovens”, revela Deborah, entrando em acordo com a proprietária do sebo, Ivana Severino. Os livros que mais saem são os de literatura, embora várias senhoras aproveitem o sebo para adquirir as revistas românticas Júlia ou Sabrina por um bom preço. No acervo de discos de vinil, mais de cinco mil títulos lotam as estantes, “e a procura maior é por discos de rock”, conta Ivana. Segundo ela, o preço baixo dos vinis e o fato de só colecionadores os procurarem, fazem com que os deste gênero acabem saindo rápido. “Às vezes eu até vendo pra outros sebos revenderem”.

Se no pequeno sebo de Balneário Camboriú o ambiente foi minuciosamente preparado para ser tranquilo e aconchegante, na Casa Aberta as coisas não são muito diferentes. Apesar do grande fluxo de pessoas rodeando as estantes o tempo todo, o ambiente consegue conservar o minimalismo. Mesinhas com cadeiras e alguns banquinhos, que às vezes são usados como apoio quando alguém não alcança algum livro na estante, revelam que ali o cliente pode ficar à vontade. Pode folhear algumas páginas, ler algumas linhas e sentir o que o livro é capaz de passar, além da história escrita em suas folhas.

Quadrinhos raros para fãs

Fã assumido do ambiente cheio de personalidade dos sebos, o estudante Ricardo Souza os visita ao menos três vezes por semana. Influenciado pelo irmão mais velho, que trocava gibis em um sebo quando Ricardo tinha 10 anos, ele costuma ficar em média trinta minutos vasculhando os livros nas estantes. E, se pudesse, ficaria ainda mais tempo. “Mas tem faculdade e trabalho, não tenho tanto tempo pra curtir o sebo”, lamenta. Depois que finalmente adquiriu toda a saga “Terremoto”, do Batman, Ricardo agora costuma ir ao sebo sem muita ideia do que vai levar. “Eu fico olhando e o que eu achar interessante, levo”.

Para Ricardo, o mais legal dos sebos é a proximidade que ele proporciona com a cultura que as pessoas não puderam vivenciar. “Gosto muito das obras dos anos 70, 80 e 90, que foram lançadas quando eu nem tinha nascido ou era muito pequeno. Entrar num sebo é uma sensação única, é reviver o passado e suas grandes obras”, explica. Segundo o estudante, os sebos têm valor intangível. Ele não frequenta apenas pensando em adquirir mais obras para aumentar sua coleção, mas para conhecer e cultuar obras de uma época distante.

Ricardo já achou tantas obras clássicas e interessantes no sebo que mal consegue listar. Uma delas, “talvez a mais legal que eu tenha achado”, foi uma edição antiga da Liga da Justiça. “Ela era dos anos 60, era em preto e branco ainda e mostrava o encontro da Liga da Justiça com a Sociedade da Justiça”, comemora o fã de quadrinhos. Mas a alegria de encontrar a rara edição, logo se transformou em tristeza. “Infelizmente eu perdi ela na enchente de 2008”.

Seja para passar o tempo de uma tarde chuvosa, para encontrar obras que não existem mais nas livrarias, ou até mesmo para economizar, frequentar sebos é sempre uma aventura. As marcas do tempo, as folhas ásperas e algumas palavras rabiscadas a caneta pelo antigo dono de algum livro, dão a ele um aspecto diferente. Um livro, ou outro objeto qualquer comprado em um sebo, já vem com sua própria personalidade, e, não raras, às vezes, é muito mais atraente do que tirar o plástico de livro um novo.

Publicado na edição Online do jornal universitário Cobaia

Por Juliete Lunkes

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Release: Banda Torneiras

Engana-se quem pensa que para uma música ser boa ela precisa ser composta de muitos acordes e solos intermináveis. Com uma boa dose de criatividade e excelentes influências que vão do mod sessentista ao indie rock atual, a Torneiras prova que nem só de notas espirituosas vive o rock’n’roll.
Com pouco mais de um ano de existência, o trio de Itajaí, cidade do litoral catarinense, aposta na simplicidade e na criatividade para compor suas músicas. Brechós, garotas loucas, paletós puídos, os anos 60 e a falta de bares “triafudê” são detalhes que fazem parte da vida dos três e não poderiam deixar de ser parte também de suas letras.
Como toda banda em ascensão, tiveram suas primeiras composições gravadas em casa, com ajuda de um amigo. Apesar das precárias condições de gravação, foi só depois dos três primeiros singles lançados na internet que eles puderam realmente sentir o cheiro das estradas e dos palcos.
Suas melodias dançantes e refrões grudentos combinariam facilmente com os ruídos de um disco de vinil e poderiam muito bem animar uma pista de dança formada por jovens garotas de saia rodada. Aos poucos o trio começa a cair no gosto dos órfãos amantes do moderno indie rock e do rock’n’roll com cheiro de velho do Vale do Itajaí.
A Torneiras busca na simplicidade de suas melodias fugir da mesmice e fazer um rock puro, energético e dançante, sem firulas ou experimentalismos. Chama a atenção pela ousadia de querer ser Beatles, Velvet Underground, Libertines e TNT, tudo ao mesmo tempo. E espanta por conseguir ser um pouquinho de cada um e de mais centenas de outros e, no fim, soar original e sincero.


A banda fixou-se com esse nome e formação no primeiro semestre de 2008. Depois de longos meses de ensaio, no final do mesmo ano o trio inaugurou sua agenda de shows e finalmente subiu ao palco. A primeira apresentação da banda foi em Balneário Camboriú, cidade vizinha de Itajai, já com cinco músicas próprias no repertório.
No ano seguinte foram gravados os três primeiros singles: “Não estou lá”, “Uma mente sem lembranças” e “Juliete Lexotan 3mg”. Com o sucesso das músicas e do divertido vídeo de “Uma mente sem lembranças”, a Torneiras acabou fazendo mais shows em Balneário Camboriú, pegou a estrada para Blumenau e Brusque, e finalmente tocou em sua cidade natal, Itajaí. Através do projeto Barba Ruiva Convida, também em 2009, a Torneiras teve a música “Juliete Lexotan 3mg” incluída em uma coletânea virtual só de bandas da região.
Este ano, com o lançamento do EP “Tudo é Eventual” e do videoclipe caseiro da música “Guria Retrô”, o trio alcançou admiradores de lugares um pouco mais distantes e já abre sua a agenda de 2010 com o Carnarock de Joinville.

Publicado no Myspace da banda Torneiras.

Por Juliete Lunkes

quinta-feira, novembro 19, 2009

Matéria: Helvéticos

Helvéticos estreiam nos palcos de Balneário Camboriú

Nem a chuva do início da noite de domingo, 15, estragou a estreia da banda Helvéticos, de Bombinhas, nos palcos de Balneário Camboriú. O show foi no Open Bar, reduto underground dos roqueiros da região, e contou com outras quatro bandas. Essa foi a segunda apresentação do quarteto formado há poucos meses. O primeiro show aconteceu no início de novembro em Rio do Sul, no Porão do Duque.
Recentemente, os Helvéticos lançaram três singles virtuais que já estão disponíveis no Myspace da banda. As músicas foram gravadas no estúdio Frequência Digital, em Itapema, mas eles já avisam que vem mais por aí. “Temos muitos planos para o início do ano, e um deles é começar a gravar o nosso primeiro CD”, revela o vocalista e guitarrista Cainã Moreira.
Com composições marcadas por fortes influências de bandas como Cachorro Grande, Beatles e The Strokes, eles admitem ter estilos bem diferentes. O baixista Gustavo Senhok, o guiarrista Jesiel Buffon e o baterista Clovis Junior, tocam também em uma banda de hardcore, chamada Afasia C. “Eu gosto de tudo, mas quem influencia mais a Afasia são bandas como Dead Fish, que eu ouço bastante”, conta Gustavo.
Para o próximo ano, além dos planos de gravar o primeiro CD, os Helvéticos prometem mais novidades. Segundo Cainã, estão rolando negociações para um show em Guaramirim, no mês de março, juntamente com a banda gaúcha Tenente Cascavel, que é uma fusão entre as bandas TNT e Cascavelletes. “Estamos planejando também um show de volta às aulas na Univali, junto com a banda Torneiras”, finalizou.

Publicado no blog temático de webjornalismo Musisc

Por Juliete Lunkes

terça-feira, novembro 10, 2009

Matéria: Torneiras

Torneiras grava EP na capital

Já passava das 10 e meia quando o Uno preto do baixista Camilo Garcia estacionou em uma ruela da praia da Armação, em Florianópolis. O início da gravação do primeiro EP da banda Torneiras, de tajaí, estava marcado para as 10h do feriado de finados, mas alguns erros de trajeto atrasaram um pouco a chegada dos músicos ao estúdio Ouié Discos. O trio fez uma curta viagem de Itajaí até a capital catarinense só para a gravação das cinco músicas que integrarão o primeiro EP da banda.
O estúdio caseiro tem vista para o mar azul de Florianópolis, e nem o vento trazido por ele era capaz de sanar o calor do feriado. Por volta das 11 horas as gravações iniciaram. O guitarrista e vocalista André Fuck começou gravando as linhas de guitarra das duas primeiras músicas,“Não viajarei pra Argentina” e “Volta pra cama”. Em seguida foram gravadas as linhas de baixo e então o baterista Cyro Nunes começou seu trabalho.
"Cara, tá ficando muito bom”, repetiam os três músicos empolgados junto com o produtor Paulo Costa Franco. Torneiras foi a primeira banda de rock produzida por Franco, que abriu o estúdio há pouco tempo. “Eu achei o estúdio pesquisando na internet o melhor valor. Depois, comecei a conversar com o Paulo e ele me mandou umas músicas que ele já tinha gravado. Eu achei que ficaram boas e fechamos o negócio”, revelou André.
As cinco músicas foram gravadas com todos os instrumentos separados, e em vários takes, totalizando 10 horas de gravação e muito cansaço no fim do dia. “Mas é assim mesmo. Cinco músicas em 10 horas até é pouco. Foi correria”, avisa o produtor quando os instrumentos começaram a ser guardados.
A ideia dos músicos é lançar o ainda em novembro. “Agora falta masterizar as músicas. Esse processo vai ser feito em Itajaí mesmo”, explica o baixista Camilo. Essa última etapa ficará por conta do DJ e produtor musical Bruno Garcia, que ajudou a produzir as três músicas que a Torneiras gravou no início deste ano.

Publicado no blog temático de webjornalismo Musisc

Por Juliete Lunkes

quarta-feira, julho 22, 2009

Matéria: Last Fm

O que você está ouvindo agora?

Ele é mais do que uma simples rede virtual. De acordo com o grupo que o gerencia, “é um serviço que aprende as músicas de que você gosta”. Assim é o Last Fm: você entra no site, faz seu cadastro, instala o software para o programa em que você ouve músicas e continua ouvindo-as como costumava. Depois de criar um perfil no site com seus dados, o Last Fm registrará as músicas que você ouve em tempo real, criando listas que são exibidas na página principal do usuário. Essas listas são divididas em “Os artistas mais ouvidos”, “As músicas mais ouvidas” e “As últimas faixas executadas”.

Mas essa não é a melhor parte. O Last Fm ainda permite que você participe de grupos, que funcionam mais ou menos como as comunidades do Orkut. Você também pode procurar pessoas com gosto musical parecido com o seu e adicioná-las aos seus amigos. O Last Fm também dá dicas de pessoas que ouvem as mesmas bandas que você e mede sua compatibilidade musical com todos os usuários através de uma barrinha que vai de “muito baixa” a “super”.
Os usuários podem colaborar com as páginas dos artistas enviando fotos e escrevendo biografias dos músicos. Nas páginas dos artistas também é possível que o internauta classifique o gênero e faça uma relação de bandas que tem um estilo parecido. Dessa forma, os demais usuários podem conhecer bandas semelhantes às que costuma ouvir. Se preencher corretamente no cadastro a cidade em que mora, o usuário é avisado dos próximos shows perto dele, poderá marcar no perfil se estará presente e encontrar pessoas que também irão.

Com tantos mecanismos e aproximadamente sete anos de existência, por que então o Last Fm nunca foi tão popular no Brasil quanto Orkut ou Twitter? Para o estudante de jornalismo Vinícius de Oliveira, 23 anos, ao contrário dos demais sites de relacionamento, para alguém se cadastrar no Last Fm é imprescindível que seja fanático por música. O Last Fm é o tema do trabalho de conclusão de curso desse aficcionado que passa em média 10 horas por dia em frente ao computador.

Segundo o estudante, os usuários do Last Fm são constituídos em sua maioria por pessoas com um estilo mais alternativo, que gostam de rock, pop e música eletrônica. “São pessoas mais atreladas à música, que tem mais tendência a fuçar e conhecer coisas novas.”, afirma. De acordo com as pesquisas realizadas por ele, a maior parte dos usuários brasileiros do Last Fm pertence à região sul e sudeste do país. “Coincidência ou não, são quem tem um maior poder aquisitivo.”

Definindo seu gosto musical

A estudante Laura Maia Martins, 15 anos, é usuária do Last Fm desde maio de 2008, como entrega seu perfil de usuário. Ela conheceu o site através de um amigo e deixa sua página do Last Fm aberta durante todo o tempo em que estiver conectada a internet. “Costumo deixar a página aberta e ficar atualizando para checar se há mensagens novas. De vez em quando dedico mais tempo ao site, procurando novas bandas.” diz.

Assim como Vinicius, que assume ter descoberto seu gosto musical através do Last Fm, Laura, e grande parte dos usuários, admitem ter formado sua preferência musical fuçando nas páginas dos artistas no Last Fm. “A maioria das bandas de que mais gosto, conheci através do Last Fm.”, afirma a jovem. Para Vinicius, além de formar o gosto musical dos usuários, a principal função do Last Fm é juntar pessoas com interesses em comum. “A base da internet é a interação e o compartilhamento”, diz.

Por trás do Last Fm

A idéia começou com uma simples brincadeira de um universitário inglês. O estudante rastreava músicas que ele e seus amigos ouviam no computador através de um sistema chamado Audioscrobbler. Anos mais tarde, o Last Fm surgiu reunindo este sistema de rastreamento juntamente com a idéia de uma gravadora online que divulgava bandas independentes ainda no século XX. O objetivo era democratizar a música. Cada um deveria ouvir o que quisesse, e não o que as rádios impõem.

Atualmente a equipe do Last Fm é formada por 62 membros que se reúnem diariamente em um escritório na região leste de Londres para ajudar a mudar a maneira como as músicas são descobertas e divulgadas. Além da equipe que trabalha diretamente no escritório do Last Fm, existem também os moderadores, que são de todas as partes do mundo e colaboram para manter o bom funcionamento da rede.

Matéria publicada no jornal universitário Cobaia

Por Juliete Lunkes